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  27/12/2011  

Considerações sobre diagnóstico per-operatório por Congelação

Por: Fortunato A. Badan Palhares, João Plutarco Rodrigues Lima, Marcelo Alvarenga e José Eduardo B. Zappa.

 

Apesar da Patologia clássica contar com vários séculos de fundação, somente em 1858, com a publicação da sua “Zellular Pathologie”, deu Virchow os passos que a colocaram no rol das ciências utilizáveis para fins de diagnóstico. Segundo Hellwig (1932), coube ao alemão Ruge em 1879, o advento da biópsia como método semiótico, o que aconteceu após considerável controvérsia, pois o próprio Virchow não era favorável à sua utilização.
Entretanto, foi no início do século XX que a histopatologia firmou-se como método semiótico, graças ao considerável progresso instrumental, assim como a utilização da biópsia em número crescente, permitindo que se estabelecessem características morfológicas correspondentes aos quadros clínicos e aos tipos evolutivos de lesões (Hellwig, 1932). A constatação da inocuidade da biópsia na maior parte dos casos (Epstein e Fedorejeff, 1931), assim como o aparecimento de novas técnicas para a sua realização, tal como punção biópsia, deram ênfase à Anatomia Patológica como método propedêutico.
Dentre essas técnicas, menção especial deve ser feita a microtomia por congelação, que, podendo ser feita com rapidez, tornou possível o diagnóstico imediato de uma lesão, durante o ato operatório, o que a tornou indispensável a qualquer bom centro cirúrgico (Carvalho, 1957). O método foi aplicado pela primeira vez, segundo Hellwig (1932) por Welch em 1891, durante uma operação de Halstead, devendo-se contudo a Wilson em 1905, a descrição  das primeiras técnicas adequadas para o seu uso. Através dos anos, tem aumentado nos grandes centros e, por que não dizer, também em centros menores, a utilização da biópsia per-operatória por congelação (BPOC).
Apenas como dado histórico da importância dada a este método, vale citar dados fornecidos por Stout (1956), segundo os quais no Columbia Presbyterian Medical Center, em 1929 foi utilizada a BPOC 28 vezes. Em 1954, na mesma instituição, o número subiu para 923 vezes.
Em nosso meio, este procedimento tem se tornado rotina nos hospitais que possuem equipes de patologistas disponibilizados e preparados para esta finalidade.

 

MÉTODOS

O exame de congelação (“frozen section”) é realizado através do resfriamento rápido do tecido, a cerca de -27ºC, permitindo o endurecimento do material de biópsia e conservando sua estrutura histológica, permitindo que possa ser cortado nos criostatos (equipamentos desenvolvidos especificamente para esta finalidade), em fragmentos finos, procedimento permitido pela presteza do equipamento, diferente da utilização de equipamentos portáteis cujos cortes são mais espessos e prejudicam, em parte, uma melhor avaliação do material. Os cortes são colocados em lâmina, corados geralmente por hematoxilina-eosina e montados com lamínula. De preferência, os esfregaços, deverão ser realizados pelo próprio patologista, ao receber o espécime, para confronto com os cortes realizados, trazendo assim maior acuracidade ao diagnóstico. Em média, este procedimento fica pronto em até 10 minutos, a partir do recebimento da peça a ser estudada.
Para que o resultado seja o mais seguro possível, é importante que o material retirado pelo cirurgião siga uma ordem: chegue ao laboratório o mais rápido possível, de preferência sem qualquer meio conservante, quer seja formol, álcool ou outro líquido; que seja representativo da área suspeita; que esteja devidamente sinalizado em relação às suas margens; que as requisições sejam claras em relação ao que o cirurgião espera do patologista.  A metodologia a ser utilizada caberá ao patologista definir, enviando o material na sua totalidade ao procedimento, ou dividindo-o para melhor recurso técnico.
O exame de congelação oferece uma grande vantagem.  Ele permite um diagnóstico anatomopatológico rápido, efetuando-se o tratamento do(a) paciente em um só ato cirúrgico, um só procedimento anestésico e uma única internação hospitalar.
A comunicação do patologista com o cirurgião é direta, por telefone ou pessoalmente no Centro Cirúrgico, assim, as dúvidas podem ser solucionadas na interlocução. Findo este tempo, o material é totalmente enviado para inclusão em parafina para correlação futura dos diagnósticos.

 

LIMITAÇÕES

Sendo um procedimento, geralmente de exceção, o uso da BPOC está sujeito a algumas limitações, que são agrupáveis em pelo menos duas classes:

  1. As limitações das biópsias em geral e as que são próprias do método. Toda biópsia -- seja ou não por congelação, tem como limitação básica a validez da amostragem, isto é, se o fragmento retirado é ou não representativo da lesão. Está claro, que se o fragmento utilizado para biópsia foi retirado de lugar inadequado, ou com técnica inadequada, não permitirá um diagnóstico preciso.
  2. Outro fator a ser considerado é que, sendo este um método de diagnóstico imediato, requer patologistas experientes, não somente em anatomia patológica geral, como especificamente em diagnóstico por congelação, pois não há tempo para consultas ou comparações, valendo-se o patologista exclusivamente dos seus conhecimentos e, sobretudo, da sua memória visual.

Essa dificuldade aumenta, pela extrema responsabilidade profissional em que implica o diagnóstico imediato. Conforme afirmam Jennings e Landers (1957) “O patologista que não faz congelações frequentemente, é provavelmente mais sábio não as fazendo de todo”.
O patologista deve ter credibilidade, ou seja, o cirurgião tem que confiar plenamente no diagnóstico do exame de congelação e prosseguir ou não no ato cirúrgico, dependendo do resultado apresentado.
Outras limitações são representadas por materiais muito fragmentados (como geralmente o material obtido nas curetagens), assim como materiais calcificados ou de composição óssea.
É evidente que quanto maior for a informação prestada pelo patologista ao cirurgião, melhores serão os resultados futuros para os pacientes.
O que é de extrema importância é um alto senso de responsabilidade do patologista, não titubeando em considerar como “duvidoso”, todo resultado em que não houver certeza absoluta quanto à malignidade, solicitando ao cirurgião que aguarde o resultado após inclusão em parafina, que acontecerá com menos de 24 horas após o ato inicial. Mesmo assim, tornam-se necessárias colorações ou métodos especiais como a imunoistoquímica. Em casos como esses, há a necessidade de um perfeito entrosamento entre o cirurgião e o patologista, devendo aquele não exigir deste último, diagnósticos que não possam ser dados naquele momento. Assim como respeitar as ponderações daquele, que não tendo condições por este método de fechar o diagnóstico, apresenta a consciência ética de não vir a prejudicar o paciente com um diagnóstico duvidoso.
A recomendação será para que o paciente seja mantido internado no hospital até o resultado final ser declarado.
O exame de congelação, muito embora possa parecer um exame de fácil execução, requer alguns requisitos indispensáveis tais como:

  1. sempre que possível ser realizado o mais próximo ou mesmo em dependência dentro do Centro Cirúrgico, mantendo assim um contato íntimo entre cirurgião e patologista.
  2. Utilização de equipamento técnico especializado e patologistas experientes.

Muito embora os resultados possam ser oferecidos entre 10 e 15 minutos, há situações em que esta parceria cirurgião patologista dura até mais de três horas, dependendo da complexidade do caso, avaliação de margens cirúrgicas, ampliações de margens etc, visando sempre o melhor resultado ao paciente.