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  Allan Zimmermann  
A ”prostituição” dos médicos:
01/06/2009

 

Um conhecido vereador campineiro, na tribuna da câmara legislativa, acusou recentemente os médicos de “se venderem” para os laboratórios, deixando implícita uma relação de “prostituição” entre a classe médica e a indústria farmacêutica.
Utilizou o termo “maioria dos médicos”, mas devemos informar ao nobre edil, que caso exista por parte de profissionais médicos algum tipo de relacionamento promíscuo, seguramente isto ocorre com uma parcela ínfima da população médica.
Por outro lado é verdade que há grande prostituição médica.
Prostituímo-nos aceitando atender pacientes jogados em macas no chão dos hospitais. Prostituímo-nos aceitando que existam filas de meses para marcar consulta com especialistas, e quando a nós chegam, nervosos e furiosos (não sem razão) calamo-nos. Prostituímo-nos operando pacientes em condições muito aquém do ideal.
Continuamos a aceitar que não autorizem exames ou procedimentos que precisamos para tratar nossos pacientes e, ao invés de uma atitude moralmente aceitável, que seria virar as costas, novamente aceitamos e calamos. Aceitamos também que nossos pacientes não tenham dinheiro para comprar remédios e que os medicamentos não estejam disponíveis. Prostituímo-nos diariamente atendendo pacientes pelos valores pagos pelo SUS e por grande parte dos convênios médicos.  
Calados, participamos desta orgia que é a saúde no Brasil. É risível a preocupação com a gripe suína, considerando-se o número de mortos por falta de mínima assistência médica nos rincões deste país. Não se trata de problema municipal (aliás comparada com o Brasil, Campinas é uma ilha de excelência), trata-se de um problema nacional  cuja raiz é o descaso de sucessivos governos.
O governo abre mais e mais faculdades buscando atender a preços cada vez mais baixos a demanda por profissionais médicos. Não obstante continuam a faltar médicos.
Aliás, na área de saúde, se consideradas as ponderações acima, somos todos “prostitutos” (e cúmplices, uma verdadeira quadrilha), médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, auxiliares e técnicos de enfermagem, todos trabalhamos em condições vis, com salários aviltantes e silenciamos, pouca ou nenhuma denúncia fazemos da “máfia da saúde.
Quanto aos médicos particularmente, faltarão eternamente enquanto não forem respeitados; os médicos, via de regra, são sujeitos muito bem preparados para exercer qualquer atividade. Um cidadão que passa seis anos (12 se contarmos que é período integral) numa faculdade, depois fica mais 3 a 6 anos (6 a 12 no mesmo raciocínio) é apto a atuar em uma gama de atividades, muitas das quais nenhuma relação tem com o exercício da medicina.
Então quando o poder público oferece salário inferiores aos de prostituta de quinta categoria, ele simplesmente muda sua área de atuação, e será competente onde quer que vá atuar. Médicos aprendem rápido, estão acostumados a estudar.
Agradeça meu caro vereador, todos os dias porque nos prostituímos, médicos e todos os demais profissionais da saúde, por pior que seja, continuamos mal ou bem, a atender e cuidar de nossos pacientes. Pode ser que um dia não queiramos mais, e se nos unirmos, daremos um basta nesta exploração fechando a casa da mãe Joana.
Eu posso assegurar que se há “prostituição” na classe médica, serão pouquíssimos os profissionais envolvidos, a absoluta maioria trabalha duro, de modo honesto e, com muita seriedade.
Quanto a profissionais “que se vendem”, desejo sinceramente, apenas para finalizar, que o nobre vereador possa dizer o mesmo da casa legislativa campineira, que possa defender seus pares com a consciência tão tranqüila quanto eu posso defender os meus.

 

Dr. Allan Zimmermann - neurocirurgião intensivista, pós-graduado em Medicina Aeroespacial, graduando em Direito pela Metrocamp